terça-feira, 20 de março de 2012

PROFESSOR DR. AZIZ AB'SABER

Sexta-feira, dia 16 de março de 2012, o Brasil perdeu um filho ilustre, em verdade, todos nós perdemos. Ab’Saber ao longo de sua vida se dedicou ao estudo da Geografia e à defesa dos nossos recursos naturais e meio ambiente. Ele revelou em um artigo logo após entrar na USP como estudante que se apaixonou pela Geografia ao fazer observações sobre o relevo e a vegetação no interior paulista quando de uma excursão da faculdade. Desde então, passou a estudar mais a fundo as interações entre a ação da natureza e a ação antrópica no meio natural. Seu interesse passou a ser geomorfologia, tornando-se emérito nessa área. Também se destacou em outros estudos sobre geologia, fitogeografia, ecologia e biologia evolutiva, desenvolvendo pesquisas sobre estes temas. Reconhecido internacionalmente, entre outros prêmios, foi agraciado em 2001 com o Prêmio Unesco para Ciência e Meio Ambiente. Nos últimos anos vinha constantemente criticando o novo Código Florestal, que ainda tramita no Congresso Nacional. Afirmava ele que toda e qualquer inovação passava necessariamente pela proteção daquilo que a natureza nos dá e faz. Para ele, o Código Florestal não contemplava – e não contempla – as características dos biomas encontrados no nosso território e muito menos respeitava – e não respeita – a importância das florestas para o equilíbrio do meio ambiente e o resultado prático da agressão que o Código propõe é a destruição dos biomas. Pelo que vemos, parece que nossos “representantes” no Congresso preferem não ouvi-lo e sim seguir seus interesses mesquinhos e pessoais. Ab’Saber se tornou consultor ambiental do PT e do ex-Presidente Lula, afastando-se posteriormente por discordar dos rumos da política ambiental tomadas pelo governo, como o apoio à usineiros e transposição do São Francisco. Também fez críticas sobre a questão do aquecimento global. Embora não negando a sua existência, dizia que a ação antrópica ainda não era suficientemente conhecida e estudada a fundo para se dimensionar os efeitos
           
Ab’Saber desenvolveu o conceito de domínios morfoclimáticos, associando as características climáticas e morfológicas dos domínios. Ele enumerou seis domínios, separados por faixas de transição, definindo os mesmos pelas características climáticas, botânicas, fitogeográficas, pedológicas e hidrológicas. A caracterização dos domínios morfoclimáticos brasileiros é uma questão antiga. Na década de 1960 foi feita uma publicação que apresentava uma classificação das regiões morfoclimáticas brasileiras seguindo uma nomenclatura exclusivamente fitogeográfica, o que restringia sua aplicação na distinção das verdadeiras províncias morfoclimáticas. Na década de 1970, Ab’Saber, procurando compreender a originalidade das grandes regiões naturais do país, percebeu que a mera classificação fitogeográfica era insuficiente. Assim, ele individualizou os domínios levando em conta as particularidades bem definidas dos mesmos e que os diferenciam, como por exemplo, a província fitogeográfica, a atuação das massas de ar, as regiões climáticas e o modelado do relevo. Mesmo que hoje sejam utilizados novos critérios para o estudo da compartimentação do relevo brasileiro, o estudo dos domínios morfoclimáticos continua atual e que permite entender a interação das paisagens naturais.

Domínio amazônico

Está sob o domínio da massa de ar equatorial continental, na faixa de convergência dos alísios – daí o clima equatorial -, o que implica intensa pluviosidade. O que mais marca esse domínio é a floresta Amazônica (Hiléia), tida como floresta tropical chuvosa ou floresta equatorial, latifoliada e de grande biodiversidade. Portanto, é um ambiente próprio para o intemperismo químico e biológico. Nela está a bacia hidrográfica do rio Amazonas e os rios amazônicos são diretamente responsáveis por processos de erosão e sedimentação. A riqueza hidrográfica da região apresenta rios de coloração diferente, por assim dizer. São rios de água preta – nascidos em áreas florestadas com solos intensamente lixiviados (rio Negro); rios de águas claras – cuja cabeceira está em áreas mais elevadas de estrutura cristalina (rio Tapajós); e rios de águas barrentas – que se originam nos Andes e que apresentam elevada carga de materiais em suspensão resultantes do trabalho erosivo, sendo ricos em nutrientes (rio Amazonas). Quanto aos solos, temos a presença de argilas lateríticas sem a formação de crosta, sendo os mesmos pouco espessos e ácidos. A riqueza dos solos está justamente na cobertura vegetal, que origina matéria orgânica decomposta. Daí que o desmatamento é uma grande ameaça a esse ecossistema. Quanto ao relevo amazônico, por muito tempo achou-se que a Amazônia fosse uma grande planície. Hoje sabemos que apenas 5% da área é composta por planícies, notadamente ao longo do rio Amazonas. Temos a presença de estruturas sedimentares em planaltos baixos, depressões e as porções elevadas de estrutura cristalina do planalto norte-amazônico (o escudo das Guianas). Por fim, é o maior bioma brasileiro.

Domínio do cerrado

Segundo maior bioma, abrange terras do Brasil central. Está sob a atuação da massa de ar equatorial, da tropical marítima (que perde boa parte de sua umidade no litoral, penetrando mais estável), da tropical continental e da polar atlântica, que eventualmente chega lá. Daí a alternância de um período chuvoso (verão) e outro seco (inverno), o que caracteriza o clima tropical típico. No que diz respeito aos solos, há formação de argilas lateríticas no período de chuvas, sendo que no período seco há o encrustamento, o que origina o solo laterítico ou crosta. São solos ácidos que requerem técnicas corretivas, como a calagem, para que a agricultura possa se desenvolver. A vegetação típica apresenta um extrato herbáceo-arbustivo, com vegetais adaptados à sazonalidade das chuvas e com áreas de solo exposto. A chuva tem impacto direto sobre o solo, não sendo absorvida por ele e ocasionando um escoamento superficial que provoca sulcos e ravinamento. O processo de intemperismo mais importante é o físico, quando a rocha é desagregada pela diferença térmica. No período chuvoso temos o intemperismo químico e bioquímico, que decompõem os minerais já desagregados. Ao longo dos cursos fluviais temos a presença de matas ciliares (matas galerias) e nos lugares mais úmidos desenvolve-se o cerradão, com árvores de maior porte. Quanto ao relevo, encontramos superfícies aplainadas, com a presença de chapadas (planalto sedimentar típico que apresenta um acamadamento estratificado e constituído em grande parte por camadas de arenito), planaltos residuais, depressões e extensas planícies fluviais, como as dos rios Araguaia e Tocantins. A rede hidrográfica tem baixa densidade, mas é no cerrado que estão as nascentes dos rios das principais bacias hidrográficas brasileiras: Amazonas, Paraná e São Francisco.

Domínio dos mares de morros

São chamadas de mares de morros as formas mamelonares resultantes do processo químico que retira as arestas das formas de relevo primitivas, arredondando-as. É típico em áreas de estrutura geológica cristalina com influência do clima tropical úmido, com intemperismo químico e bioquímico. Uma forma constante presente é de pães-de-açúcar (domos de esfoliação), que constituem vertentes íngremes e fazendo com que o material intemperizado desça, expondo a rocha. Sofre a influência direta da massa tropical marítima, com intensa pluviosidade. Também temos a presença de planícies litorâneas, formadas no período quaternário da era Cenozóica. As áreas mais elevadas, de estrutura cristalina, são de escudos antigos, escarpadas e que se originaram de falhamentos causados por tectonismo há milhões de anos. As serras presentes servem como divisores de águas e determinam o traçado dos rios (os principais são o Grande, o Paraíba do Sul, Doce e Tietê). A vegetação original era a Mata Atlântica, intensamente devastada por processos de urbanização e atividades agrícolas, não sendo hoje o principal determinante do domínio. Pouco resta da mesma, mas de qualquer maneira, o que restou nos mostra sua imensa biodiversidade, por sua densidade e heterogeneidade. Como apresenta um clima tropical úmido, com boa pluviosidade – concentrada no verão – há o risco de constantes desmoronamentos de encostas. Nas áreas mais elevadas temos também a presença de campos de altitude, onde domina o clima tropical de altitude, o que pode ocasionar, mesmo que raramente, precipitação de neve, como o ocorrido no maciço do Itatiaia.

Domínio da caatinga

A caatinga é a formação básica desse domínio. É uma vegetação adaptada ao clima seco (tropical semi-árido) e que apresenta raízes profundas (xerófitas) em solos rasos. A rede hidrográfica é intermitente (rios temporários) e os leitos são rasos, o que pode ocasionar enchentes quando do período chuvoso. Nas áreas mais elevadas, sujeitas às chuvas de relevo no interior do domínio, temos a presença de brejos, áreas mais úmidas. Em razão da escassez de chuvas pela irregular atuação das massas de ar, o balanço da evapotranspiração é negativo, isto é, na maior parte do ano a evaporação é maior que a precipitação. Por ser uma região mais seca, o processo de intemperismo dominante é o físico, com desagregação mecânica das rochas e o escoamento é superficial. A estes processos soma-se o intemperismo bioquímico. A desagregação mecânica resulta da intensidade da insolação sobre as rochas e da amplitude térmica entre o período diurno e o noturno. Nas regiões semi-áridas (sertão nordestino, Polígono das Secas), a vegetação é aberta, o que favorece a lavagem superficial dos solos resultando em extensos pedimentos (formação resultante do material transportado pelas encostas das vertentes que se depositam em forma de leque) e inselbergs (resultantes da erosão diferencial, são morros e maciços isolados formados por rochas remanescentes de um clima mais árido). Pela escassez de chuvas, pela natureza dos solos e da vegetação, temos um domínio muito suscetível a processos de desertificação. A ocupação humana potencializa o processo através de atividades agrícolas irrigadas, pastoreio e mineração, fragilizando ainda mais o ecossistema.

Domínio das araucárias

 Está situada na porção sul do território brasileiro, sobre a Bacia do Paraná, com clima subtropical úmido que se caracteriza por maiores amplitudes térmicas, chuvas bem distribuídas com máximas no inverno, com ocorrência de geadas e podendo haver precipitação de neve nas áreas mais elevadas do planalto. A mata de araucária (subtropical) que se desenvolve sobre o planalto está associada aos solos férteis resultantes da decomposição do basalto, porém, são solos ácidos. A colonização agrícola se encarregou de transformar a mata em áreas de cultivo ou de extração de madeira. A estrutura geológica do planalto é sedimentar-basáltica e as formas de relevo abrangem planaltos e chapadas. A hidrografia apresenta duas grandes bacias: a do Paraná e a do Uruguai, com grande potencial hidrelétrico e grande aproveitamento do mesmo.

Domínio dos campos

Também podem ser chamados de pradarias, correspondendo ao extremo sul do país, com clima subtropical úmido. É a campanha gaúcha ou pampa. As atividades agropecuárias são bem desenvolvidas. A pecuária em razão de campos levemente ondulados (coxilhas). A agricultura em razão do solo de brunizens, resultantes da decomposição de rochas ígneas e sedimentares. O relevo é dominado por coxilhas, pequenas colinas arredondadas, típicas da depressão riograndense, sendo as mesmas recobertas por uma vegetação rasteira e herbácea (gramíneas). Nas partes mais baixas das vertentes das coxilhas, onde ocorre afloramento de água, existem formações arbóreas chamadas capões, e também matas-galeria ao longo dos cursos fluviais. No sudoeste gaúcho temos a Cuesta do Haedo (cuesta é uma forma de relevo dissimétrica, constituída de um lado por um perfil côncavo ou convexo (frente ou front da cuesta) e de outro por um planalto suavemente inclinado). Os rios do domínio ou correm em direção ao rio Uruguai (Bacia do Uruguai) ou em direção ao rio Jacuí (Bacia do Sudeste).
                                                
Faixas de transição

As faixas de transição são áreas onde coexistem elementos de dois ou mais domínios morfoclimáticos, ou seja, onde há a interação desses elementos sem caracterizar um domínio específico. São os ecótonos. Como destaque, temos o Pantanal Mato-grossense e a Mata dos Cocais. O Pantanal está na região de atuação do clima tropical típico, em uma extensa planície ligada à Bacia do Paraguai. Os terrenos têm pouca declividade e na época das chuvas alagam suas margens e além das mesmas, tornando o pantanal a maior planície inundável do mundo. Os rios que drenam a região trazem um grande fluxo de nutrientes, sendo responsáveis pela diversidade e densidade da fauna. Os solos são alagadiços e de baixa fertilidade, predominado a atividade pecuária. A vegetação do Pantanal é tida como complexa e heterogênea e apresenta características presentes nos demais domínios. Os grandes problemas desse ecossistema são: a atividade pecuária que permite a disseminação de doenças para a vida silvestre, a caça predatória e o contrabando associado e o desmatamento, assoreando os rios, o que acaba por ampliar as áreas de inundação ameaçando a fauna. A Mata dos Cocais está situada entre os estados do Maranhão e Piauí, sendo a transição dos domínios amazônico, dos cerrados e da caatinga. A principal atividade econômica está no extrativismo vegetal de babaçu e carnaúba.


No que diz respeito ao relevo brasileiro, compartimentou o relevo basicamente entre planaltos e planícies, caracterizados por superfícies expostas respectivamente a processos erosivos e de deposição; as unidades receberam denominações regionais, e não geológicas, sem que se desconsiderasse a importância do estudo das rochas para a caracterização de cada uma delas; os Planaltos de estrutura sedimentar apresentam muitas chapadas (formas de relevo moldadas em rochas sedimentares, do que resulta a feição tabular, a superfície mais ou menos plana e encostas abruptas); já as elevadas altitudes do Planalto das Guianas e das serras e planaltos do Sudeste se explicam pela intensa atividade tectônica antiga e pela presença de rochas cristalinas, mais resistentes à erosão; a classificação de Ab’Saber foi elaborada com base na estrutura geológica e na influência dos climas atuais sobre a atuação dos processos geomorfológicos.




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